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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Zé Carioca e as lendas urbanas




O Zé Carioca foi criado durante a Segunda guerra, durante a visita de Walt Disney ao Brasil em 1941, como parte da Política da Boa Vizinhança.

O papagaio estreou em 1942 em pranchas dominicais e no o filme Saludos Amigos, onde conhece o Pato Donald, que visitava o Brasil, no dois anos depois, reencontra o Donald e o conhecem o galo mexicano Panchito no filme The Three Cabaleros. Em 1948, aparece em um seguimento do filme Melody Time, ao lado de Donald e o Aracuã (também conhecido como Folião).


O personagem é recheado de lendas urbanas, eis algumas delas:


1) O Zé Carioca foi inspirado na entidade da umbanda conhecida como Zé Pelintra?


Não, o Zé Pilintra é representado por um homem negro com roupas do malandro carioca, o terno branco, gravata grená ou vermelha e chapéu panamá de fita vermelha ou preta (as cores branco e vermelho remetem a São Jorge ou a Ogum nos cultos afros).

Zé Pelintra no traço do Anderson Almeida (História em quadrinhos, Zeladores, Devir)





Não é possível precisar a data da primeira representação do Zé Pelintra. O visual do Zé Carioca foi inspirado nas roupas dos malandros e sambistas cariocas da época.
Paulo Benjamim de Oliveira (Paulo da Portela), Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Alcebíades Barcelos (Bide) e Armando Marçal


Há quem diga que o Zé tenha sido inspirado no sambista Paulo da Portela (1901-1949), que é apontado como o precursor da roupa dos malandros cariocas. De acordo com o sambista e pesquisador Nei Lopes, em seu livro Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Selo Negro, 2004), o visual é inspirado nos zoot suits, vestimentas usadas nos EUA pelos negros e latino-americanos durante as décadas de 1930 e 1940. Para outros, o papagaio foi baseado no José do Patrocínio Oliveira (1904-1987), o Zezinho, um cavaquinista paulista.  Oliveira dublou o papagaio nos dois primeiros filmes e  depois, chegou a fazer carreira internacional. O guarda-chuva usado por Zé teria sido inspirado no Dr. Jacarandá, uma figura folclórica do Rio de Janeiro que andava com um guarda-chuva debaixo do braço.


José do Patrocinio, o Zezinho e Walt Disney

                                                       



E o Brasil não era estranho aos americanos, Carmem Miranda  (1909-1955), cantora portuguesa naturalizada brasileira, começou a sua carreira nos Estados Unidos em 1939, não por acaso, sua irmã, Aurora (1915-2005), aparece no filme The Three Caballeros (uma vez que Carmen possuía um contrato de exclusividade com 20th Century Fox).


                  Carme Miranda em That Night in Rio (1941)



2) O Zé Carioca foi copiado de cartuns do J. Carlos

Não há provas que Disney tenha copiado os cartuns de (1884-1950), mas sabe-se que o ilustrador foi o primeiro brasileiro a desenhar personagens Disney em uma revista em quadrinhos. A revista em questão era O Tico-Tico, que, a partir de 1930, começou a publicar as tiras do Mickey Mouse e Gato Félix, Walt Disney foi apresentado a J.Carlos e chegou a convidar o ilustrador para ir trabalhar em Hollywood. Ele, no entanto, não aceitou o convite. Logo, surgiram boatos, um deles que Disney levou uma ilustração do Donald com um papagaio e daí teria surgido o Zé Carioca. Contudo, não há nenhum registro fotográfico de tal ilustração.

J.Carlos


3)O Zé Carioca foi criado pelos americanos como uma imagem negativa do povo brasileiro: malandro, preguiçoso e cachaceiro.




No filme Saludo Amigos, o papagaio aparece fumando charuto e oferecendo cachaça ao Donald, mas é preciso verificar o contexto da época, quando não havia uma preocupação com o consumo de álcool e tabaco. Vários desenhos e quadrinhos da época apresentavam personagens consumindo álcool e tabaco. Hoje em dia isso não é mais possível graças às restrições em produções infanto-juvenis. O Zé Carioca das tiras de jornal é retratado como um malandro. Porém, esse comportamento era comum em vários personagens. Um deles, o Pica-Pau de Walter Lantz, seria amenizado com o passar do tempo. Nas décadas de 1960 e 1970, os autores brasileiros foram incluindo elementos tipicamente brasileiros.


Prancha dominical do Zé Carioca, 25/07/1943
Fontes e referências




Paulo da Portela: traço de união entre duas culturas, Marília T. Barboza da Silva, Marília Trindade Barboza, Lygia Lopes dos Santos, Edição Funarte, 1980


Celso Sabadin. (Fevereiro 2013). "O Nosso Zé Carioca, agora setentão".Jornal da Abi (387)






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