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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Divindades africanas e os super-heróis






Como se sabe, o uso de mitologias em quadrinhos de super-heróis não é algo incomum, sem falar que Jerry Siegel admitiu que Hércules foi uma das suas inspirações para o Superman. Thor é uma divindade da mitologia nórdica/viking que já foi usado por várias editoras, a primeira delas, foi a de Pierce George Rice publicada em 1940 pela Fox Feature Syndicate, mas sua versão mais conhecida é da Marvel, criada em 1962 por Stan Lee, seu irmão Larry Lieber e Jack Kirby, esse último havia feitou uma para a editora quando essa se chamava Atlas em 1951.


Vemos divindades greco-romanas e até egípcias, mas quando aos demais cultos africanos?

É bem verdade o conhecimento sobre religiões africanas não era tão difundido, é comum vermos chama-las de voodu (vudu ou vodu) ou xamanismo, mas há uma infinidade de religiões, vamos nos concentrar apenas no vodu (originário do grupo étnico Fon) e na religião ioruba (ou yoruba), ambas originárias da Africa Ocidental,  ao chegaram nas Américas, esses cultos sofreram sincretismos religiosos, entre si, com o catolicismo e com cultos de ameríndios, Exemplos: Vudu da Lousiana, Vudu haitiano, Candomblé e Umbanda (Brasil) e Santeria (Cuba, Porto Rico e República Dominicana). Nos vodu, as divindades são chamadas de voduns e na religião ioruba, de orixás.



Nos quadrinhos da Marvel, a primeira menção a o vudu se deu em  Lorna, the Jungle Queen #5 (fevereiro de 1954), por Don Rico (roteiro) e Werner Roth (desenhos) em uma historia de Lorna, uma heroína similar a Tarzan e Sheena, onde há a presença da deusa fictícia Mamalu, apesar do pseudônimo parecer hispânico, o autor Don Rico era um descendente de italianos.






Em Fantastic Four #52, história de Stan Lee (roteiro) e Jack Kirby (desenho) surge o Pantera Negra, o herói é T'Challa, um monarca de um reino africana fictício chamado Wakanda cujos poderes eram oriundos do deus Pantera. 


Em Giant-Size X-Men #1 (maio de 1975), estréia a mutante Ororo Munroe, a Tempestade, criada por Len Wein (roteiro) e Dave Cockrum (desenhos),  originária do Quênia, Ororo pode controlar o tempo, seus poderes e sua origem africana faz com que seja comparada com a orixá Iansã ou Oya, não temos dados que comprovem a influência, mais a frente irei comentar essa conexão.


Episódio 20 de X-Men Evolution com a presença da Tempestade retratada como uma deusa do clima.


Em Uncanny X-Men Annual 1985 (dezembro de 1985), em uma história escrita por Chris Claremont com desenhos de Arthur Adams com arte-final do próprio Adams, Mike Mignola e Alan Gordon, Ororo ganha o martelo Stormcaster de Loki, o irmão de Thor.


A primeira divindade africana com inspiração real a aparecer numa HQ da Marvel foi Xangô (ou Shango em inglês), oriundo da mitologia ioruba, sua primeira aparição foi curiosamente, em uma história do Thor, ao ladoe divindades de outros lugares do mundo, em Thor Annual #10 (1982), escrita por  Mark Gruenwald e Alan Zelenetz, ilustrada por Bob Hall com arte-final de Rick Bryant, Joe Rubinstein, Andy Mushynsky, Al Gordon e Kevin Dzuban, Na DC, Xangô fez sua aparição em 1990, nas histórias do segundo Nuclear por John Ostrander (roteiros) e Tom Mandrake (desenhos).





Anansi ou Kwaku Anansi é originário das lendas do povo Akan de Gana na Africa Ocidental, Anansi é uma criatura que pode virar um homem e uma aranha. Anansi apareceu pela primeira vez em Justice League of America #239 (junho de 1985) num história por Gerry Conway  (roteiro) e Rick Hoberg e Chuck Patton (desenhos), é o responsável pela criação do totem usada por Vixen, personagem criada por, na Marvel, sua primeira aparição foi em Thor 398 (dezembro de 1988), escrita por Tom DeFalco (roteiro), Ron Frenz (desenho) e Don Heck (arte-final).  O roteirista e escritor Neil Gaiman usou Anansi nas suas séries literárias American Gods e Anansi Boys. Anansi também aparece no terceiro episódio da terceira temporada de Static Shock/Super-Choque, série baseada nos quadrinhos criados por Dwayne McDuffie (escritor que também produziu a série) e John Paul Leon (ilustrador), para o selo Milestone, que contava apenas com super-heróis negros, como a série acabou sendo integrada ao Universo DC Animado, não sabemos se esse Anansi tem algum relação com a Vixen, Anansi também é mencionado na web-série animada Vixen do Arrowverse (universo compartilhado entre séries live-action Arrow, Flash, Legends of Tomorrow e Supergirl).


Panteão africano na Marvel


Em 2005, o ilustrador e editor Joe Quesada criou o grupo Santerians para a minissérie Daredevil: Father, jovens de origem latina com nome e poderes derivados dos orixás: Eleggua, Oshun, Ogun, Chango e Oya..




Em Uncanny X-Men #528 (setembro de 2010), uma nova personagem com nome Oya criada por por Matt Fraction e Kieron Gillen, seu nome verdadeiro é Idie Okonkwo,  uma jovem da Nigéria que foi salva por Tempestade e Hope Summers, seu poderes inclui manipulação de fogo e gelo, ou seja, também tem ligação com o clima.




A mutante Oya

Em 2006, o escritor Eric Jerome Dickey roteiriza uma história de Flashback em que Ororo é salva pelo jovem T'Challa, embora isso tenha entrado em contradição com a história publicada em Marvel-Team Up #100 (dezembro de 1980), onde é Ororo que salva o jovem T'Challa em uma história escrita por Chris Claremont e Frank Miller, esse último também ilustra a mesma. Esse fato também é mostrado em Uncanny Origins #9 (maio de 1997), escrita por Jim Alexander com desenhos do brasileiro Marcelo Campos, publicada aqui em Origens do Super-Heróis Marvel #8 (Editora Abril, outubro de 1999).


 Ainda em 2006, Ororo casa com T'Challa, em 2012, o casal se separa.
Tempestade e Pantera Negra, arte de Alan Davis

Em 2017, na série produzida pelo escritor afro-americano Ta-Nehisi Coates, os deuses de Wakanda são chamados de orixás (embora orixás sejam da Africa Ocidental e nas histórias da Marvel, Wakanda fica na Africa Oriental, próximo a Tanzania) , mas sua origem tem mais ligação com dividandes egípcias, com o já citado Deus Pantera, na série de 1998, pelo também afro-americano Christopher Priest, o Deus Pantera é chamado de Bast ou Basted, uma divindade solar egípcia, que originalmente era feminina (algo restado na série de Coares), o panteão de Wakanda é composto por outras divindades de origens distintas da Africa: Thoth e Ptah (também de origem egípica), Kokou (orixá de Benin), Mujaji (divindade do povo Lovedu da Africa do Sul), Nyami (divindade de Zâmbia e Zimbabwe na Africa meridional).


Ainda na série Ta-Nehisi Coates, até mesmo a Tempestade é adorada por uma parte da sociedade, além do mais, o escritor definiu que em Wakanda há mais de um Anansi, caracterizando como uma raça extra-dimensional.


O panteão de Wakanda, Black Panther #13, junho de 2017, arte de Wilfredo Torres




Em 2014, foi financiado através de financiamento coletivo no site indiegogo, o curta nigeriano Oya - Rise Of the Superorisha, escrito e dirigido por Nosa Igbinedion e estrelado por Ethosheia Hylton que interpreta Adesuwa, uma jovem que se transforma em Oya.


Arte de Alex Genaro







No Brasil há alguns exemplos de uso de orixás em quadrinhos, Como Exú, personagem de Lancelott Martins, o Catalogador, Ogum aparece em 2007 como membro do grupo Defensores da Patria de Alex Mir (roteiro) e Diógenes Neves (desenhos), Mir também produziu em 2011, Orixás: do Orum ao Ayê, ao lado de Caio Majado (desenhos) e Omar Viñole (cores).







Em 2016, o ilustrador Hugo Canuto postou no Facebook uma ilustração em homenagem aos 99 anos do quadrinhista Jack Kirby, criando The Orixas, uma capa imaginava (que ilustra o começo desse post)  inspirada na icônica capa dos Vingadores em The Avengers #4 (março de 1964), ilustrada por Jack Kirby com arte-final de Paul Reinman. Canuto evoluiu a ideia e postou novas ilustrações e em 2017, lançou uma campanha na plataforma de financiamento coletivo Catarse da HQ Contos dos Orixás, com roteiros e desenhos dele, diagramação e arte-final de Marcelo Kina, cores de Pedro Júnior e pin-ups de Salamanda, Octavio Cariello, Sam Hart, Laudo Ferreira, Will, Oliver Borges, Dan Arrows, Paulo Torinno, Jefferson Costa, Daniel Cesart, Ricardo Cidade, Renata Rinaldi, Diane Araújo.





. O projeto teve grande cobertura da mídia, com Canuto sendo entrevistado na revista Jack Kirby Collector #71 (maio de 2017) da TwoMorrows Publishing, na capa, é possível ver o Corredor Negro, personagem de Jack Kirby para o Quarto Mundo, conceito criado para a DC Comics.




Agradecimento ao Paulo Agria por apontar sobre as divindades de Wakanda, o que permitiu que eu atualizasse o texto.


Referências e leitura recomendada

Contos de Òrun Àiyé é um projeto bacana de HQ no Catarse!

Mitos africanos e afro-brasileiros – o quanto cabem na cultura pop?

Vodu - Marvel Wikia

Gods of Wakanda - Marvel Wikia

Gods of Africa - DC Wikia


African Gods (Loa, Orishas) - Marvel Universe: The Appendix!

Vodu (African Gods) - Marvel Universe: The Appendix!

Panther God - Marvel Universe: The Appendix!

Santerians (Daredevil characters)

Shango - Comic Vine

Anansi - Comic Vine

Exú - HQ Quadrinhos

Superespecial: [Nuclear] 2ª série – de Pohzar ao Elemental

Contos de Òrun Àiyé: Orixás chegam ao Catarse


Os Negros nas Historias em Quadrinhos - Parte 1

Os Negros nas Historias em Quadrinhos - Parte 2

Os Negros nas Historias em Quadrinhos - Parte 3

Os Negros nas Historias em Quadrinhos - Parte 4

Turistando na África das Histórias em Quadrinhos

The marriage and divorce of Storm and Black Panther

Storm (Marvel Comics)- Wikipédia

Anansi (Race)

Personagem da Semana: Idie Okonkwo

Oya - Procolos Marvel

Contos dos Orixás/ Tales of the Orishas

Pop África

4 comentários:

  1. Grande matéria!!! Importante abordagem sobre as divindades africanas e suas migrações para os Quadrinhos... Grato pela citação de EXÚ, meu personagem - adaptado do Candomblé.

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    1. De nada, como usei alguns links seus, achei que podia mencionar junto com outros nacionais.

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  2. Muito boa a matéria Quiof, com a proximidade da estreia do filme do Pantera Negra será que teremos mais deuses africanos aparecendo?

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    1. Pois é, engraçado que eu tinha ignorado Wakanda por ser mais fictícia, mas uma dica do Paulo Agria me mostrou que estava mexendo no cânone na série atual e o texto ficou oportunamente atual, aconteceu com outras postagens, mencionei algumas coisas que acabaram tendo notícias logo em seguida.

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