Pular para o conteúdo principal

Os mutantes da Marvel



Inspirado nos textos O que torna Namor mutante? do Paulo Agria e Patrulha do Destino – O grupo mais “Marvel” da DC! do Alexandre Meireles da Silva, resolvi fazer um texto sobre os mutantes da Marvel e tentar investigar as origens criativas desses personagens (o que não é uma tarefa fácil).




Na Biologia, mutante é o organismo que sofreu mutação em seu DNA, cromossomo ou organismo.

Na Marvel, os mutantes mais conhecidos são os X-Men, criados em 1963 por Stan Lee (roteiro) e Jack Kirby (desenhos).



Na história, mutantes (classificados como Homo sapiens superior ou homo superior) eram humanos cujos pais tiveram contatos com radiação e nasceram com poderes, vale lembrar que após a Segunda Guerra Mundial, durante a chamada Guerra Fria, havia o temor de uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética, isso se reflete em obras como Godzilla, uma outra criação da dupla, Incrível Hulk e até mesmo um personagem brasileiro, Fantar de Edmundo Rodrigues. O vilão Magneto comparava os mutantes aos Cro-Magnon e humanos aos Neandertais.


Conforme já mencionei em outros posts, nem tudo é eterno dentro das obras em qualquer mídia, há o conceito de continuidade retroativa ou retcon, ou seja, alguns elementos do passado podem ser alterados dentro da história, o retcon é um tropo utilizado há muito tempo. Diversas discussões são feitas sobre o que é canônico ou não é canônico (uma história oficial pode não ser canônica, depende da decisão dos editores, diretores ou produtores).


Pois bem, na Marvel a origem dos mutantes mudaria, em meados da década de 1970, Jack Kirby voltava para a Marvel após um tempo na DC, onde fez obras como Kamandi e Novos Deuses, desse último, Kirby trazia os elementos cósmicos (que ironicamente, havia planejado para a Marvel), na série de 19 edições The Eternals (1976-1978), Kirby introduziu os Celestiais, seres alienígenas que criaram as raças Eternos e Deviantes, que eram rivais, algo próximo que havia feito em Novos Deuses, com a introdução dos Celestiais, eles passaram a ser os responsáveis pela introdução do gene mutante na humanidade.

Muitos acreditam que Kirby se inspirou em Deuses Astronautas? de Erich von Däniken (1968), contudo, o blog Alien Exploration mostra que desde 1957, Kirby havia se aproximado da chamada Teoria dos antigos astronautas, curiosamente, ele fez os concepts de um projeto de um filme baseado no romance Lord of the Light de Roger Zelazny, que conta a história de aliens que assumem a forma de deus hindus, o projeto do filme foi usado numa operação da CIA com o governo canadense para resgatar diplomatas no Irã em 1979, isso é descrito de forma ficcional no filme Argo de 2012. Para a Marvel, Kirby adaptou o filme 2001: Uma Odisseia no Espaço do diretor Stanley Kurbick baseado no conto The Sentinel de Arthur C. Clarke, expandindo a história e criando o robô Machineman.

O conceito da teoria doas antigos astronautastambém pode ser rastreado nos Mitos de Cthulhu, iniciados pelo escritor pulp H. P. Lovecraft em 1928 na revista Weird Tales ou até mesmo em uma obra mais antiga, Edison's Conquest of Mars (1898) de Garrett P. Serviss, uma sequencia não autorizada da Guerra dos Mundos de H. G. Wells.


Com o tempo, a editora passou fazer distinção entre os mutantes, nascido com poderes e os mutates, aqueles que ganharam poderes sofrendo mutações em determinado momento da vida, como Hulk, Homem-Aranha, entre outros. Na DC Comics, o uso do termo mutante também era comum, o herói Capitão Cometa era descrito como um mutante, também há mutantes na minissérie The Dark Knight Returns de Frank Miller. Em 1986, o escritor George R. R. Martin criou o termo metahuman (meta-humano em português) para uma campanha do RPG Superworld criado por Steve Perrin  e Steve Henderson, essa campanha deu origem a série de livros Wild Cards escrita por Martin (que é declaradamente um antigo fã da Marvel), anos depois, Wild Cards foi adaptado por John J. Miller e Kevin Andrew Murphy para GURPS Supers da Steve Jackson Games em quadrinhos pela editora Epic (selo da Marvel), Dabel Brothers Productions/Del Rey e Dynamite.  No Brasil, os livros foram publicados pela editora LeYa (2013-atualmente), os quadrinhos pela Editora Globo (1992-1993) e o RPG pela Devir Livraria (junto com o livro GURPS Supers (1994).

Em 1989, a DC usou o termo meta-humano em sua minissérie Invasion!, a partir de então, meta-humano passou a ser usado na editora tanto para pessoas nascidas com poderes ou que ganharam poderes depois. Curiosamente, na década de 1990, a Editora Abril usava o meta-humano para traduzir mutate (não sei como a Panini Comics faz atualmente). Em 2008, a editora Green Ronin Publishing publicou uma nova adaptação de John J. Miller para seu sistema Mutants & Masterminds (publicado no Brasil pela Jambô Editora com o título Mutantes & Malfeitores).

Em 1996, o crossover Marvel vs DC deu origem ao Universo Amalgam (Amálgama) do selo Amalgam Comics, que misturava personagens e elementos das duas editoras, Ororo vira a heroína Amazon, uma versão da Mulher-Maravilha, na história, Ororo vai parar na Ilha Themyscira e vira a heroína da ilha no lugar de Diana, diferente dos outros Amalgams, ela não é uma fusão de dois personagens, sua história foi escrita e desenhada por John Byrne (que trabalhou com ambas as personagens).



Os proto-mutantes
Embora os X-Men sejam mais conhecidos, não foram os primeiros mutantes publicados pela Marvel, alguns consideram o anti-herói Namor (criado por Bill Everett em 1939, quando a editora se chamava Timely), um híbrido entre humanos e seres da cidade perdida submersa de Atlântica, os Homo mermanus, porém, conforme o link que postei no começo do texto, isso ainda é motivo de discussão, ainda assim, caso Namor não seja considerado, outro personagem da chamada Era de Ouro é considerado mutante, o Centelha (Toro no original), o sidekick do androide flamejante Tocha Humana, criado por Carl Burgos em 1940, Centelha era Thomas Raymond, filho de dois assistentes de laboratório que trabalharam com Phineas T. Horton, cientista que criou o androide, expostos os produtos químicos que davam poderes ao androide, o casal concebeu ao jovem que também nasceu com poderes flamejantes, órfão de pai e mãe, Centelha passou a ajudar o Tocha Humana, lutando ao lado do Capitão América, Namor e outros heróis.


Como Atlas Comics, a editora publicou alguns personagens que antecedem os jovens X-Men.

Em "The Weird Woman" publicada Amazing Detective Cases #11 (março de 1952), ilustrada por Joe Sinnot, cujo roteirista não foi identificado, uma mulher chamada Gloria Beasley, que podia atravessar objetos, além de telecinesia, poderes psíquicos.

Em Man Comics #28 (setembro de 1953), ilustrado por Carl Hubbell, também escrita por um roteirista anônimo, havia Roger Carstairs, um homem que podia criar ilusões.

Em "The Man with the Atomic Brain!" publicada em Journey into Mystery #52 (maio de 1959) foi oficialmente a primeira história roteirizada por  Stan Lee envolvendo um mutante, ilustrada por Steve Ditko (cocriador do Homem-Aranha), na história, Ted Lestron é filho de Karl Lestron, um homem que foi exposto a um teste de explosão de uma bomba atômica em 1944, Ted nasceu com telecinesia, telepatia e levitação, além de poder atravessar objetos sólidos.

Em "The Mutants and Me!", publicada em  Tales of Suspense #6 (novembro de 1959), escrita por Stan Lee em parecia com o irmão Larry Lieber com desenhos de Joe Sinnot, mostra Vincent Farnsworth, um homem que pode atravessar objetos sólidos e se teletransportar, além da presença de Stan Lee e Joe Sinott (que anos mais tarde seria arte-finalista de Jack Kirby, inclusive em X-Men), esse é o primeiro uso do termo mutante na editora.

Em 1961, após 10 anos usando o nome Atlas Comics (ou seja, atuou durante a segunda metade da  Era de Ouro, período também conhecido como interregno e no começo da Era de Prata), editora já estava usando o nome Marvel Comics, embora o nome sempre permeou a editor, sua primeira revista ainda na Timely em 1939 foi Marvel Comics, em Marvel Mystery Comics #55 (maio de 1944), a editora foi chamada de Marvel Comics e em All Surprise Comics # 12 (Verão de 1946/1947), trazia a frase"A Marvel Magazine".

Em "The Man in the Sky" publicada em Amazing Adult Fantasy #14 (julho de 1962), Stan Lee (roteiro) e Steve Ditko (desenhos), há Tad Carter, personagem com poderes telepáticos, telecinéticos e voo. Conforme eu comentei lá começo, retcons são recursos recorrentes, entre 1999 e 2001, o escritor e desenhista John Byrne produziu X-Men The Hidden Years (X-Men: Anos Incríveis no Brasil), a série mostrava eventos ocorridos na década de 1970 (1970-1975), quando a revista Uncanny X-Men republicava histórias antigas até o relançamento da série com Giant-Size X-Men #1 (maio de 1975) com roteiro de Len Wein e desenhos de Dave Cockrum, introduzindo novos personagens como Colossus, Tempestade, Noturno, Pássaro Trovejante e Wolverine (que havia surgiu antes como um inimigo do Hulk). Nela, Byrne reintroduz Tad Carter, que integrou um grupo chamado The Promisse, a série terminou abruptamente na edição 22, o que irritou Byrne, que nunca mais trabalhou na editora, na mesma época (2000-2001), Byrne e Roger Stern fizeram a minissérie em 12 edições Marvel: The Lost Generation, assim como Zero Hora da DC, a numeração era decrescente, Byrne  r Stern contaram uma história que preenchia o período posterior a Segunda Guerra Mundial e o lançamento do Quarteto Fantástico (1961), mostrando personagens consagrados como Doutor Estranho, Namor e Thor e criando outros, a trama lembra outro retcon da editora ,Appearing in "What If... the Avengers Had Been Formed During the 1950's? publicada em What If? Vol 1 #9 (junho de 1978)  por Don Glut (roteiro) e Alan Kupperberg (desenhos), onde personagens da Atlas como Jimmy Woo, Gorilla-Man, Venus, M-11 e Marvel Boy fundam os Vingadores nos anos 50, em 2006, Jeff Parker (roteiros) e Leonard Kirk (desenhos) revisitaram essa ideia e criaram os Agentes de Atlas (Agent of Atlas). Com a saída de Byrne, não se sabe se suas séries de retcons valem para  a cronologia.



Mutantes em outras fontes

Mutantes aparecem em várias obras, mas vou me concentrar em algumas para contextualizar com os quadrinhos da Marvel.

Em 1939, o escritor Stanley G. Weinbaum escreveu o romance The New Adam (O Novo Adão) que mostra um homem com superpoderes descrito como uma humano evoluído, embora o termo mutante não apareça, o conceito lembra o Homo superior da Marvel.

No romance Children of the Atom (1953) de William H. Shiras, mostra crianças com superpoderes surgidos de exposições a armas atômicas que se escondem da sociedade com medo de sofrerem preconceito, na verdade, o romance era uma expansão de três histórias curtas publicadas na revista Astounding Science Fiction como a novela "In Hiding" de 1948, essas histórias viraram os primeiros capítulos do romance. Stan Lee negou ter se inspirado no romance ou mesmo na novela (embora as influências pulps sejam evidentes nos seus trabalhos uma vez que a Marvel começou publicando revistas pulps), mas coincidentemente, com o tempo, o nome Children of Atom passou a ser uma alcunha dos X-Men, inclusive sendo usado em uma revista, um jogo de vídeo game e um suplemento de RPG da TSR (a mesma de Dungeons and Dragons).

Também em 1953, a revista de tecnologia Mechanix Illustrated publicou o artigo "How Nuclear Radiation Can Change Our Race" de Otto Binder (assinado como O. O. Binder), um escritor de ficção científica e histórias em quadrinhos e ilustrado pelo quadrinista Kurt Schaffenberger, o artigo descreve mutantes com poderes mentais ajudando ou escravizando a humanidade, o artigo pode ser lido neste link, muitas das invenções descritas pela revista acabariam sendo reconhecidas como obras de ficção, o mesmo vale para esse artigo.

Por fim, na série literária alemã de space opera Perry Rhodan introduziu em agosto de 1963 (um mês antes de Uncanny X-Men #1 ser lançada), o Exército de Mutantes, filhos de pessoas que foram expostas a radiação das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki no Japão desenvolvem superpoderes. É improvável que tenha inspirado Lee e Kirby, como mencionei acima, haviam outros exemplos anteriores, além disso, a série só foi lançada nos Estados Unidos em 1969 por iniciativa de Forest J. Ackerman.



Fontes e referências
Stan Lee, "O X marca o lugar", Wizard Brasil #4, novembro de 1996, Editora Globo

Kathia Natalie Gomes, "Os pulps", Scientifc American - Exploradores do Futuro #3 - Isaac Asimov, Duetto, 2005

Super-heróis e superpoderes na Ficção Científica

Before the 'Apocalypse': Other Contenders for 'X-Men's' First Mutant

John Marshall - O chefe do Exército de Mutantes

Alien Explorations - Jack Kirby

Celestials: 15 Facts That Make Marvel’s Space Gods SCARY AF

Mutants in fiction

Mutant (Marvel Comics)

Crítica - X-Men: Primeira Aparição (Uncanny X-Men #1, 1963)

Amazing Detective Cases Vol 1 11

Man Comics Vol 1 28

Journey int Mystery Vol 1 52

Man Comics Vol 1 28

Amazing Adult Fantasy Vol 1 14

Weird Woman - The Appendix of the Handbook of the Marvel Universe

Ted Lestron

Roger Carstairs

Vincent Farnsworth

Tad Carter

Ancient Astronauts - TV Tropes

Ancient astronauts in popular culture

Wild Cards Origins

Metahuman

Mutantenkorps - PerryPedia

Mutants - TV Tropes

Espers: Os Paranormais dos Animes e Mangás

Relembrando: a minissérie Cartas Selvagens

RESENHA - Wild Cards: O Começo de Tudo

The Lost Generation

Desvendamos o poder X Super Interessante

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Muttley e Rabugento

Muttley e Rabugento (Mumbly no original) são bem parecidos, nesse texto pretendo explicar as origens criativas contar um pouco da história desses personagens ao longo dos anos.

Mangás brasileiros ao longo das décadas

Esse texto é uma atualização do texto publicado no site Kotatsu Wikia, onde fui convidado a colaborar em um texto pré-existente.


Histórias em Quadrinhos em domínio público nos Estados Unidos

Quando se diz que uma obra está em domínio público, significa que seus direitos expiraram e que pode ser usada livremente. Contudo, definir o domínio público não é uma tarefa fácil.